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Cláudio Torres

Cláudio Torres & Mértola
 

Da fraqueza se fez força

“Como é que é possível que 500 anos de presença islâmica correspondam do ponto de vista histórico, a um enorme vazio?”. Essa foi uma das questões que esteve na raiz do projeto. A antiga cidade de Martulah (designação muçulmana de Mértola) mergulhara no desconhecimento depois de períodos brilhantes na Antiguidade e na Idade Média anterior à Reconquista.

Em 1978 Mértola era ainda uma pequena vila, longe da capital e distante do meio universitário, onde o isolamento foi o primeiro obstáculo a ultrapassar, tornando o projecto difícil em muitos aspectos incluindo a atracção de quadros qualificados.

Essas dificuldades foram vencidas através da montagem de uma estrutura – o Campo Arqueológico de Mértola – que esteve no centro de todas as iniciativas seguintes. Cláudio Torres conseguiu tornar o projeto atrativo e pô-lo a funcionar, conquistando financiamentos e fazendo com que o interesse e originalidade do trabalho desenvolvido chamassem a Mértola dezenas de voluntários e especialistas de onde nasceu um corpo técnico, que ali se fixou. E foi também a criação de uma larga equipa de colaboradores, com diferentes graus de participação, que ajudou a dar solidez e credibilidade ao projeto.

Da fraqueza se fez força e foi precisamente o caráter único do projeto de Mértola, aliado ao carisma, visão e tenacidade de Cláudio Torres, que chamou a atenção de entidades públicas e privadas. Isso foi conseguido através de uma persistente política de contactos, da procura de soluções criativas e da diversificação de fontes de financiamento tanto públicas como privadas. Em 1994, o Turismo de Portugal, apercebendo-se do impacto que o trabalho de revitalização da localidade a partir do turismo cultural estava a lograr, criou um programa específico de apoio ao projeto de Mértola, que contou também com o continuado empenho da Câmara Municipal. Projectos de investigação, financiados por organismos públicos deram visibilidade ao projecto junto da comunidade científica nacional e internacional.

A visão de Cláudio Torres do projecto como elo entre a arqueologia, o património cultural, e o desenvolvimento local e o apoio que deu à comunidade, às tradições locais nos mais diversos domínios potenciaram-se mutuamente. Cresceu Mértola e cimentou-se o projecto.

 

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Pedras multiculturais


As pedras multiculturais de Mértola

O projeto que Cláudio Torres pôs em marcha em Mértola trouxe à luz do dia uma riqueza patrimonial esquecida. A vila caíra no esquecimento, e foi através do trabalho arqueológico que, aos poucos, o seu passado foi revalorizado. A ligação ao mundo mediterrânico esteve, desde sempre, no centro do seu projeto.

Não se tratou, apenas, de realizar o programa de escavações que está em curso desde há 45 anos. Todos os trabalhos arqueológicos resultaram na cuidada recuperação de sítios e na sua colocação ao serviço de um discurso didático e destinado a todos os públicos. Assim sucedeu com o núcleo romano, instalado sobre os restos de uma habitação daquele período, ou com o núcleo paleocristão construído em torno de uma basílica do século V, dando origem a museus de sítio. Onde tal se revelou impraticável, os materiais foram conservados em espaço museológicos específicos, como no caso do Museu Islâmico (https://www.museudemertola.pt/en/).

Os núcleos museológicos foram importantes para sublinhar a ligação a diversos pontos do Mediterrâneo: na basílica paleocristã há lápides que testemunham a ligação a comunidades gregas e norte-africanas. Na Alcáçova, os mosaicos provam a ligação de Mértola ao Médio Oriente.

As pedras de Mértola, a que Cláudio Torres deu uma visibilidade ímpar, mostram testemunhos das línguas latina, grega, romance, árabe e portuguesa. Ponto de encontro de civilizações, a teia que se foi formando é o resultado de uma cidade mercantil que até ao século XIII esteve aberta ao mundo mediterrânico.

A ligação às comunidades científicas e de proteção do património cultural da Europa foram enfatizadas, por exemplo, em projetos como Discover Islamic Art, que Cláudio Torres liderou em Portugal (https://islamicart.museumwnf.org), tal como em inúmeros outros projetos. Merecem aqui destaque duas exposições que deram relevo ao legado cultural mediterrânico: “Mértola Almoravide et Almohade” (Rabat, Marrocos, 1988) e “Maroc-Portugal, portes de la Mediterranée” (Tânger, Rabat, Marrocos, 1999). Ambas tiveram catálogos bilingues português/árabe.

A sua incansável disponibilidade para partilhar com outros e divulgar o projecto de Mértola, têm-no levado a todo o mundo, em conferências, congressos e encontros, como em iniciativas de pequenas organizações da sociedade civil.

 

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Com um grupo de crianças

 


Da pesquisa arqueológica à apropriação comunitária

A pesquisa arqueológica em breve daria origem a outros caminhos. O que começou por ser uma questão científica em breve tomou outro rumo. Da escavação se passou ao trabalho de recuperação de velhos sistemas de produção de mantas tradicionais, numa inovadora abordagem que cruzou arqueologia, antropologia e etnografia. Numa região despovoada e sujeita a longos séculos de esquecimento, a investigação colocava o Homem e o seu devir no centro das preocupações. A partir dessa investigação, a comunidade reapropriou-se da sua História e tornou-a parte do seu próprio futuro e desenvolvimento.

Ao longo de mais de 40 anos foi possível desenvolver 14 núcleos museológicos, escrever dezenas de livros e catálogos, manter uma revista de arqueologia medieval e dar condições para que teses de mestrado e de doutoramento fizessem o seu percurso. Seguramente, mais importante que isso foi a devolução da dignidade às populações e a colocação de uma pequena localidade, longe dos grandes centros urbanos, numa posição de centralidade, antes inimaginável.

Mértola passou a ser ponto de visita regular de académicos e de investigadores nacionais e internacionais. Pela vila passaram vários congressos nos domínios da História, da Arqueologia e da Museologia. Facto decisivo, Mértola tornou-se uma importante plataforma de contacto com países da margem sul do Mediterrâneo. Pela vila, e pelo seu Campo Arqueológico, passaram dezenas de bolseiros, com particular destaque para os que eram/são oriundos da Tunísia e de Marrocos. E com eles diversas gerações de arqueólogos, historiadores, antropólogos e conservadores-restauradores etc. que aqui realizaram e realizam estágios profissionais. Todos usufruindo da biblioteca de referência sobre o período islâmico e medieval ali criada, para onde convergiram significativos espólios. A Academia portuguesa não ficou fora deste processo. O centro de investigação criado por Cláudio Torres integra uma unidade de investigação da qual fazem também parte as Universidades de Coimbra e do Algarve.
 

Uma visão inovadora, uma perspectiva holística

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Porta Islâmica

Em Mértola Cláudio Torres concretizou uma visão inovadora que abrange de forma transversal as dimensões científica, museológica, ambiental, socioeconómica e política. Muitas delas foram em Mértola colocadas no centro da ação pela primeira vez.

O tópico central do projeto foi a redescoberta do nosso passado islâmico. Até ao arranque das escavações arqueológicas no Castelo, em 1978, o que se sabia do período islâmico em Portugal (711-1250) era muito pouco. Foi este projeto o ponto chave para o arranque desse conhecimento.

Mas não foi por acaso que um dos primeiros projetos a tomar forma foi o estudo das mantas tradicionais – ligando os seus padrões decorativos às raízes históricas da islamização –, depois convertido na raiz de uma pequena cooperativa de produção. Essa profunda ligação às pessoas levou também, por exemplo, que tivesse sido possível salvar, musealizar e colocar ao serviço da comunidade como peça pedagógica uma forja de ferreiro.

Em Mértola, a expressão “museu de sítio” passou de conceito teórico para ganhar foros de cidadania. Através da ligação entre sítios arqueológicos e integração museológica foi criado um percurso de visita e de conhecimento do local, ligando os diferentes espaços expositivos. Nesse sentido, a vila ela mesma acabou por se converter num enorme museu, onde a História está sempre presente.

Uma dimensão menos conhecida mas crucial deste plano, em coerência com a sua perspectiva holística do património, é a importância atribuída desde o início à paisagem e ao mundo rural, que o levaram a ainda a impulsionar a criação do Parque Natural do Vale do Guadiana de que foi o seu primeiro director.

Tratou-se, neste caso concreto, de dar ao património cultural um merecido destaque. Foi, sobretudo, a oportunidade de dar ênfase no projeto de Mértola a uma visão abrangente, em que o Homem está no centro na História, da paisagem e em que ele mesmo é o principal protagonista do território.

A Arqueologia e o Património tiveram importantes reflexos na Economia local. A criação dos núcleos do museu e toda a dinâmica que o projecto criou, bem como a permanente concretização de trabalho em rede com a Câmara Municipal de Mértola – desde o início, o principal parceiro do projeto, tanto do ponto de vista institucional como financeiro – favoreceu a criação de novos negócios e impulsionou decisivamente o turismo.

Uma pequena localidade de pouco mais de 1000 habitantes passava a chamar a atenção e a ser um polo de atração para milhares de visitantes anuais. O projeto, a vila e os seus habitantes ganharam um indiscutível protagonismo a nível nacional.
 

Inclusivo e agregador

A incansável capacidade de Cláudio Torres em criar cumplicidades e pontes abriu o caminho para a cooperação nacional e internacional com outros projectos de investigação, mas também para uma presença activa constante em fóruns internacionais.

Dar a conhecer o património local à população foi um primeiro passo. Mais importante ainda foi a (re)apropriação por parte dos mertolenses daquilo que sempre lhes pertencera: a sua História e o seu Património. E também neste caso o conhecimento foi intercambiado numa lógica de equidade. O que Cláudio Torres ganhou em conhecimentos científicos, através de um longo trabalho de investigação, foi depois devolvido, em primeiro lugar, à população local.

O projeto baseou-se em Mértola e teve sempre a população local como primeiros protagonistas e “recebedores” desse conhecimento. Esses públicos não-tradicionais acompanharam e, sobretudo, participaram no desenvolvimento do projeto desde o primeiro dia. Os espaços museológicos e eventos como o Festival Islâmico têm lugar em espaços que pertencem à comunidade. A presença do Património no quotidiano de Mértola foi e é a melhor forma de transmitir esse conhecimento em permanência.

A comunidade científica tem tomado conhecimento do trabalho desenvolvido em Mértola sob a liderança de Cláudio Torres, através dos catálogos dos museus, das teses de mestrado e de doutoramento realizadas no seio do Campo Arqueológico, bem como através da revista “Arqueologia Medieval” (15 números publicados). A organização de encontros científicos, em Mértola, tem sido uma prática corrente dinamizada pelo Campo Arqueológico. A regular publicação de atas de colóquios, a apresentação de comunicações em congressos e a publicação de artigos tornaram, há muito, familiar o nome de Mértola junto da comunidade científica nacional e internacional.

Mas o seu espírito inclusivo e agregador liderou sempre o projecto, envolvendo equipas multidisciplinares com a plena consciência de que no centro da investigação estava o homem-comunidade e o seu território, em todas as suas dimensões.

Entre muitos outros aspectos, a visão que decorre da nova perspectiva sobre a centralidade do património islâmico em Portugal, aproximou-nos de outras comunidades, culturas e vivências que afinal tão próximas de nós estão. Em Mértola, onde cristãos, muçulmanos e judeus viveram juntos, trabalharam e comerciaram juntos, partilharam vidas e sepulturas, sente-se e sabe-se que fazemos parte de uma comunidade maior que comunga dos mesmos valores.
 

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